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UNIVERSIDADE  FEDERAL  DO  MARANHÃO
DEPARTAMENTO  DE  FILOSOFIA
 
A construção do objeto da história das ciências
em Gaston Bachelard 
 
Nady Moreira Domingues da Silva
Profª Assistente do Dep. de Filosofia da UFMA  

        Para um espírito verdadeiramente científico todo conhecimento é uma resposta a uma pergunta. Todo ele é o resultado de um exaustivo trabalho de interrogação da realidade. Como tal, o objeto da História das Ciências tem por característica fundamental o fato de que ele não nos é dado, mas deve ser por nós construído, num processo sem solução de continuidade. Exige para tanto do historiador o que Gaston Bachelard chama de "novo espírito científico" e, tal como na construção de um objeto de ciência, seja ela qual for, o objeto da História das Ciências exige uma certa postura intelectual.

"Fazer a História das Ciências, consiste em fazer a história dos conceitos e das teorias científicas, bem como das hesitações do próprio teórico. Trata-se de um esforço para se elucidar em que medida as noções, as atitudes ou os métodos ultrapassados foram, em sua época, um ultrapassamento. Mais profundamente, como nos mostrou Canguilhem, interrogar-se sobre a história das ciências consiste em interrogar-se ao mesmo tempo sobre sua finalidade, sobre seu destino, sobre seu por quê, mas também sobre aquilo pelo que ela se interessa, de que ela se ocupa, em conformidade com aquilo que ela visa"(1).

Uma história das ciências que não seja meramente descritiva, que não se limite a uma narrativa cronológica das produções do saber exige, em primeiro lugar, a construção do seu próprio objeto. Para Gaston Bachelard, a história das ciências não é absolutamente empírica e sim é a história do "progresso das ligações racionais do saber"(2).

O ponto de partida bachelardiano é a própria ciência já constituída, mas ao contrário de outros historiadores não se limita ao relato cronológico das idéias, muito menos a uma ordenação dos problemas científicos, segundo sua complexidade crescente. Pelo contrário, ele propõe uma inversão epistemológica e, ao retificar seu ponto de partida, vem a nos mostrar que a realidade estudada pela ciência não é, em absoluto, simples e sim vem a tornar-se simples como resultado de um trabalho de simplificação. É "a solução encontrada que reflete sua clareza sobre os dados"(3).

Três conceitos são fundamentais na Histórias das Ciências proposta por Bachelard: o de obstáculo epistemológico, dialético e de um novo espírito científico. Tais conceitos permitir-nos-ão entender que "o desenvolvimento científico não é um desenvolvimento simplesmente histórico; uma força única o percorre e pode-se dizer que a ordem dos pensamentos fecundos é uma matéria de ordem natural"(4).

E nesse sentido "o historiador das ciências deve tomar as idéias como fatos"(5). O obstáculo epistemológico encaminha-nos a uma relevância para os erros surgidos ao longo do processo científico, erros estes omitidos ou desconhecidos pela história tradicional. O erro, por oposição, faz surgir a verdade e, como conseqüência, uma autêntica história das ciências.

Tais obstáculos encontram-se no interior mesmo do próprio ato de conhecer. E na verdade, para ele, "se conoce en contra de un conocimiento anterior destruyendo conocimiento mal adquiridos"(6). Um dos primeiros obstáculos a ser ultrapassado é a opinião. Também um fato mal interpretado, torna-se para o epistemólogo um obstáculo. Um outro exemplo pode ser encontrado quando, numa marcha progressiva de organização vê-se ameaçada por novas descobertas. São causas de inércia, estagnação ou regressão do processo científico.

Ao lado do conceito de obstáculo epistemológico encontramos a dialética, isto é, a superação de partes da história e o sancionamento de outras tantas partes pela ciência atual. A dialética, em Bachelard, não se orienta propriamente para a "morte" do passado. Por isso ele se serve da funcionalidade do "não" de uma geometria não-euclidiana, de uma mecânica não-newtoniana, etc., não quer dizer abandono de Euclides e de Newton; mas, expansão. Nega-se a continuidade grosseira, ingênua, mas ela em certo sentido persiste. Assim, para Bachelard, seria mais interessante falar no par contínuo-descontínuo, do que consagrar a um dos elementos e condenar ao outro.

A sua dialética está em oposição frontal às dialéticas anteriores; chama-a de dialéticas "a posteriori", pois se efetua na própria prática científica: ela organiza o saber científico e torna-se o próprio processo histórico que possibilita o "ajustamento" entre teoria e experiência. Torna-se necessário uma certa imprudência ao abandonar o superado, para poder recriá-lo. Em síntese, Bachelard "chama de dialética ao movimento do saber às voltas com suas próprias objeções, suscitando seus problemas, delimitando-os para lhes poder dar uma solução provisória, aberta à acolhida da perturbação, permitindo que se coloque o problema de outra forma e se generalize a solução por um tipo de racionalismo que conquista seu fundamento em seu próprio futuro. Trata-se de uma dialética do ultrapassamento da razão por si mesma; muito menos a pedra angular de uma doutrina filosófica do que o instrumento indispensável de compreensão e de explicação dos problemas científicos"(7). Encontra-se subjacente em sua dialética a idéia de ruptura epistemológica e a sua implícita necessidade nesta nova história das ciências: o progresso do conhecimento não se faz numa marcha imutável, nem pela acumulação dos novos conhecimentos adquiridos. Caso assim fosse a história das ciências torna-se-ia vítima de uma confusão entre a continuidade da história(8). É importante então estabelecer a relação existente entre as ciências e a História das Ciências; e a concepção bachelardiana é descontinuista em oposição à concepção continuista de Augusto Comte.

Tal concepção positivista, ao pregar a sua continuidade, engana-se diante da lentidão dos progressos científicos, confundindo-a com uma continuidade desses progressos, o que não é mais possível em nosso século.

Dos dois primeiros conceitos anteriormente analisados, podemos inferir o que seja o novo espírito científico bachelardiano. A partir dele é possível a construção de uma História das Ciências onde a Epistemologia está permanentemente em ato. Os pesamentos dominantes nesta nova atitude intelectual são precisar, retificar, diversificar. A cada verdade encontrada urge questionar, interrogar cada vez mais essa verdade. O saber tradicional perde a sua característica de estático, de fechado, sendo substituído pelo conhecimento dinâmico que fugirá à certeza e unidade dogmáticas, estas podendo mesmo virem a ser autênticos obstáculos epistemológicos. O verdadeiro espírito científico é o que tem consciência do sentido do problema. O papel do cientista perde a sua conotação de passividade ante a realidade, isto é, de contemplação e adquire um papel ativo de "construtor da realidade". "Para un espiritu cientifico todo conocimiento es una respuesta a una pregunta. Si no hubo pregunta, no puede haber conocimiento cientifico. Nada es espontáneo. Nada está dado. Todo se construye"(9). As tarefas do Epistemólogo e do historiador das ciências estão intimamente ligada, pois têm em comum a história científica atual. Essa tarefa, mediante o novo espírito científico, será exatamente a de superar os obstáculos existentes no próprio espírito.

A utilização simultânea dos conceitos de obstáculo, dialética e novo espírito científico permitem à História da Ciência de Bachelard tornar inteligível a construção lenta, difícil e retificada do conhecimento científico. Este, como já afirmamos anteriormente, não evolui numa linha contínua e inexorável; é preciso reconhecer os erros e desordens, as superações que ocorreram ao longo do tempo: a história das descontinuidades surgidas na formação do saber científico. Tomemos como exemplo a teoria do flogístico, citada por Bachelard, como uma história superada pela teoria do calórico, que vem pertencer à história sancionada.

Quando Bachelard parte da ciência já constituída e utiliza seus três conceitos fundamentais, acima referidos, para analisar essa ciência, necessariamente ele terá como norma o limiar da cientificidade; quando parte da cultura científica de hoje, busca, numa visão retrospectiva, purificar determinados conceitos até aonde esses conceitos adquirirão estatuto dessa cientificidade. É, de certa maneira, a libertação da ciência naquilo que ela possui "de metáforas ou de conteúdos imaginários"(10). A viga mestra da obra de Bachelard não se encontra na questão como se constitui a ciência, e sim em uma outra questão mais profunda: quais as condições de possibilidade da constituição da ciência?

A sua proposição não é a de legitimar a ciência, pois não a aceita como algo originariamente dado, e sim de reconstituir passo a passo essa ciência que é produto de um processo e de uma prática históricas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 SILVA, A. R. et. alli. "Filosofia da Ciência", Apostila-PUC, 1976, p. 14
2 JAPIASSU, H.. Para ler Bachelard, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, p. 58
3 BACHELARD,G. in Canguilhem,G.,A História das Ciências na Obra Epistemológica de Gaston Bachelard, p.1
4 Idem, op. cit., p. cit.
5 Idem, op. cit., p. cit.
6 BACHELARD, G., La Formación del Espiritu Científico. Trad. de José Balbini, Buenos Aires,Siglo Veintiuno,1972,p.15
7 JAPIASSU, H., Op. cit., p. 70
8 CANGUILHEM, G., Op. cit., p.5
9 BACHELARD, G., Op. cit., p.16
10 FOUCAULT, M., "A Arqueologica do Saber". Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves, Petrólis, Vozes, 1972, p. 231  


Trabalho publicado na revista Filosofia em Revista 86.5